sábado, 24 de agosto de 2019
O Peso da Fumaça [Quintana e o Frentista]
Não sei se foi Mário Quintana ou o frentista do posto de gasolina que me disse que fumar é uma maneira sutil e disfarçada de suspirar.
Pergunto-me agora quantos suspiros teremos ainda pela frente, do que depender da política suicida em matéria ambiental que o atual desgoverno promove ou incentiva. Se a atmosfera se tornou sufocante e em breve tomaremos suco de agrotóxico, voltar a fumar não me pareceu uma ideia tão insensata.
Falando em fumar, quando a coisa fica cinza, costumo me refugiar em meu santuário, minha memória afetiva, a mesma que me fez rever “Smoke”, película dos anos noventa, cujo titulo, de forma sábia e poética, foi vertido como “Cortina de Fumaça” em terras brasileiras.
A modesta produção, dirigida por Wayne Wang e inspirada num conto de Natal do escritor Paul Auster ("Auggie Wren's Christmas Story"), oferece ao espectador um elixir de ética e poesia em tempos de decomposição de valores, sem contar pitorescas e nostálgicas cenas da época em que se acendia um belo de um cigarro ou charuto em recinto fechado sem maiores pudores (tal qual o ar irrespirável de Mad Men).
O enredo todo se desenvolve dentro e a partir da tabacaria de Auggie que, ao contrário do Esteves de Fernando Pessoa no poema "Tabacaria", é um homem cheio de metafísica, tendo como passatempo, por décadas, fotografar, diariamente e no mesmo horário, a esquina de sua loja no Brooklyn.
O que talvez possa ser o registro do mais do mesmo acaba capturando e revelando pelo acaso nuances do lugar e dos passantes, considerando que “nada é real exceto o acaso”, como diz o próprio Paul Auster na sua trilogia de Nova Iorque.
Aliás, “tabacaria”, tanto o lugar quanto o poema, parece necessariamente nos levar a processos introspectivos e decisivos em nossa vida, vide o escritor italiano Antonio Tabucchi que um dia, ao ler os versos de Pessoa achados ocasionalmente em um quiosque perto da Gare de Lyon, em Paris, sofreu uma espécie de epifania, descobrindo o real sentido de sua existência ou de sua busca interior.
O que há de mais doce e terno nos personagens do filme é uma espécie de postura pia diante dos conflitos e antagonismos, reconhecendo-se no sofrimento do outro uma extensão de seu próprio dilema.
Assim, Auggie perdoa a ex-mulher oportunista, a filha viciada em crack, o empregado relapso que, por sua vez, perdoa o pai ausente, ganhando o perdão do escritor que o acolhe e que também perdoa os traficantes que o agridem, finalmente tentando perdoar o destino pela morte precoce de sua mulher baleada em um assalto. Sei que não parece fazer muito sentido em tempos nos quais cristãos celebram a morte de criminosos e o “dar a outra face” tenha se tornado algo obsoleto.
Para perdoar é preciso compreender, para compreender o outro é preciso enxergá-lo, vê-lo diante de si. A racionalidade e a democracia modernas pressupõe o reconhecimento da alteridade. Na verdade perdoar está virando item de luxo pois está cada dia mais impossível o mínimo diálogo com quem nega fatos evidentes e verdades científicas, preferindo transformar tudo em mera questão de opinião (convicção).
O que estamos a experimentar é a total negação do outro, uma névoa obscura de intolerância tão densa quanto a vista em Londres, em dezembro de 1952, que quase colocou a cabeça do conservador Churchill a prêmio, mas que ainda não demonstra ser capaz de colocar minimamente em xeque os “atributos” de nossa versão arremedada e muito vagabunda de reacionário que nos preside.
Curiosamente, logo na primeira cena de “Smoke”, o escritor Paul Benjamin narra para outros clientes uma anedota de Sir Walter Raleigh, corsário, explorador e poeta que viveu na segunda metade do século XVI e início do século XVII, reconhecido como introdutor do tabaco no Império britânico. O aventureiro inclusive chegou a pisar por estas paragens, coletando produtos e narrando mitos acerca das terras amazônicas.
Desde que o corsário se tornara favorito da Rainha Elizabeth (Primeira), ou Queen Bessie como a chamava, fumar se tornou moda na Corte. Conhecido por sua astúcia reza a lenda que um dia apostou com a Monarca, agora sua parça, que seria capaz de medir o peso da fumaça. Para tanto colocou um cigarro novo sobre uma balança e o pesou, fazendo a operação novamente depois de tê-lo fumado, dessa vez colocando cuidadosamente a guimba e as cinzas e as pesando. A diferença entre as pesagens seria capaz de definir o peso da fumaça.
Em tempos nos quais relatórios da NASA, dados do INPE, opinião de especialistas e preocupação da comunidade internacional de nada adiantam para convencer o mais recalcitrante dos bolsominions, talvez lançando mão da mesma medida ou expediente, para cada árvore queimada, possamos mensurar o peso dessa fumaça e a dimensão do véu da ignorância que atualmente nos encobre.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Crônica da Melancolia [Victor Hugo e o Padeiro]
Não sei se foi Victor Hugo ou padeiro da minha rua que me disse que a melancolia é a felicidade de ser triste. O sol já saiu de câncer, mas esse certo estado de espírito não desalojou o corpo deste que vos escreve nem sob a ameaça de sessão de descarrego ou reza brava de benzadeira.
A melancolia é diferente de uma “bad” que não bate, espanca, é mais que uma “deprê”, ou como os mais antigos chamavam: “fossa”, a dita cuja pode ser atingida após uma tristeza prolongada em demasia, diluída no tempo, ou surge ainda quase que por inspiração, ao que Baudelaire chamava de “spleen”, o estado de “moleque pensativo” que, volta e meia, nos acerta em cheio. A sacana pode surgir em decorrência de um fato da vida, ou até mesmo provocada, reproduzida em laboratório.
Ainda nos idos do quinto século antes de Cristo, Hipócrates já classificara e vaticinara os perigos da bílis negra. Segundo o pai da medicina, a influência de Saturno leva o baço a secretar mais bílis negra, alterando o humor do sujeito (escurecendo-o), o que leva ao estado de melancolia.
Em algumas situações, a melancolia pode decorrer não de um típico sentimento individual pequeno burguês safado, mas de um estado coletivo capaz de ultrapassar gerações e afetar toda uma cultura. Além da clássica obra do alemão Albrecht Dürer, talvez a imagem mais recente que melhor exemplifique o fato seja a do singelo quadro “nighthawks” de Edward Hopper.
É noite e a rua está vazia fora do restaurante. No interior do estabelecimento um possível casal e um homem sentado sozinho (de costas para o espectador); nenhuma das três pessoas no balcão aparentemente conversa entre si, todos estão imersos nos seus próprios pensamentos. Por sua vez, o atendente parece estar buscando algo para além da janela, alheio aos clientes.
Se olharmos, com mais atenção, resta evidente que não há maneira de sair da zona do bar posto que as três paredes formam um triângulo que cria uma espécie de armadilha que encurrala os clientes. É também notável que o bar não tem porta visível para o exterior, o que ilustra a ideia de confinamento e aprisionamento.
Hopper teria começado a pintar a obra imediatamente após o ataque a Pearl Harbor, num domingo, dia tradicional da melancolia não sei se mais por culpa do cristianismo ou do capitalismo. O certo é que, após o evento, houve um sentimento generalizado de tristeza, um sentimento que é retratado na pintura, assim como o vazio e a solidão da vida moderna, tema comum em todo o trabalho do artista.
A minha primeira atração pelo quadro se deu pelo título, "falcão ou gavião da noite", alcunha usada para descrever alguém que fica acordado até tarde. Um anúncio para os cigarros "Phillies" é destaque em cima do restaurante, a primeira marca de charutos que comecei a fumar ainda na adolescência.
A cena foi supostamente inspirada por um restaurante (já demolido), em Greenwich Village, lar de Hopper no bairro de Manhattan. O lote agora vago é geralmente associado com o local que é conhecido como ex-Mulry Square, no cruzamento da Seventh Avenue South, Greenwich Avenue e West 11th Street. No entanto, segundo o The New York Times, esse não pode ser o local que inspirou a pintura, porque um posto de gasolina esteve a ocupar o lote entre os anos trinta e setenta do século passado. Há alguns anos em uma rápida passagem pela Big Apple procurei o local, em vão.
Hopper foi um espectador ávido de cinema, e os críticos notaram a semelhança das suas pinturas com cenas de filmes. Várias das suas pinturas sugerem filmes de gângsteres dos anos trinta, tal como a primeira versão de “Scarface”.
O pintor não só foi influenciado, mas influenciou o cinema. Win Wenders recria “Nighthawks” como o cenário de um filme-dentro-um-filme em “The end of Violence”, não esquecendo ainda todo cinema noir e neonoir (seja lá o que isso signifique), basta o exemplo do clássico “Blade Runner”. Em uma entrevista, o diretor Ridley Scott afirmou que andava sempre com uma cópia da pintura debaixo do nariz da equipe de produção para ilustrar o aspecto e a sensação que procurava para o filme.
Esse tal sentimento coletivo ou generalizado parece com o que estamos a experimentar em terras brasileiras, ao menos em minha bolha social que, em termos buarquianos, chamo de “minha gente”.
Tudo começou naquele fatídico agosto, de dois anos atrás, quando um desgostoso golpe travestido de impeachment se cumpriu diante de nossos olhos absortos, sendo que ainda fomos obrigados a ver um facínora elogiador de torturadores e ditaduras chegar ao poder, ironicamente, através da democracia que ele tanto avilta.
Desde então, a rotina matinal do brasileiro lúcido consiste em tomar café e contrariado acompanhar a mais nova barbárie ou asneira promovida pelo atual desgoverno, seja pelo jornal ou pela corrente de whatsapp difundida pelo tio reaça. Até então, só o futebol nos permitira tal cumplicidade nacional, nas duas copas que sediamos, assim vamos demonstrando com o tempo que somos cordiais até com a nossa própria desgraça.
De toda a sorte, a melancolia não é necessariamente ruim, em algumas circunstâncias até se torna necessária para que reconheçamos certos aspectos da vida. Ela nos permite viver num estado de clareza de consciência, o equilíbrio que há no meio do caminho entre o coach e o emo, além de em muitos casos promover um estado criativo, potencializar certas habilidades, afinal, “sem um bocado de tristeza não se faz um samba não” e com a tinta por ela produzida que Brás Cubas redigiu suas memórias póstumas.
Admito que para um canceriano, com lua em câncer, não é muito difícil atingir tal condição: basta ler “tabacaria”, do Pessoa, divinamente (mas sem metafísica) recitado pelo saudoso Antônio Abujamra, ouvir “don’t think twice it’s all right” do Dylan, ou qualquer canção sombria do Tom Waits (que no disco “nighthawks at the diner” se inspira na pintura de Hopper), ver um daqueles episódios tristes de Chaves, uma derrota do Corinthians (não tem sido frequente), um desengano da morena, ou simplesmente uma persistente chuva, típica da Amazônia, ou se pá tudo junto, para reproduzirmos mentalmente o memorável monólogo do recém falecido Rutger Rauer, interpretando o replicante de Blade Runner: “ll those moments will be lost in time, like tears in rain”.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
sexta-feira, 19 de julho de 2019
Mundo Invertido
É para o mundo invertido que vai a tampa de caneta
O isqueiro emprestado
A conta pendurada
A guimba, a bia
A tua calcinha retirada e perdida no vão do sofá
É para o mundo invertido que vai o sol no arpoador
Depois de solenemente aplaudido
A linha zero dez quando a rota finda
Os amores não vividos
Os beijos esquivados
Todos os "e se" que não permitimos acontecer
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quarta-feira, 10 de julho de 2019
Das vantagens e desvantagens para namorar

É vantajoso ter decorado um ou outro verso de Vinícius
Ter a receita adaptada para se viver um grande amor
É desvantagem essa pieguice manifesta em atavismo
E ser tão cafona como quem fecha a rima em dor
É vantajoso saber cozinhar algo e ser bom de prato
Companheiro de cama e mesa
É desvantagem esgotar as possibilidades do camarão
Exaurir as inúmeras variações do espaguete
Abusar do carboidrato e da cerveja
Criar um pouco de barriga e descuidar da pressão
É vantajoso ter apreço pelas gordurinhas
Fazer pouco caso de estrias
Ver charme na anca e suas alcinhas
Entender que a beleza dos corpos
Está na singularidade de cada imperfeição
É desvantagem abdicar do peito de remador
Ver ao largo o vigor juvenil
Ressentir-se da firmeza irretocável
Dos devotados atletas em flor
É vantajoso saber que cada um cumpre a sua sina
Fingir que gosta de friends
Compartilhar a senha do wifi e netfix
Apontar com segurança
O clitóris na cartografia feminina
É desvantagem essa dose de egoísmo
Trazer consigo as incertezas do mundo
A incapacidade de prestar fidúcia
Solidão de filho único
Tendência ao escapismo
É vantajoso estar cônscio do fim certo
Predispor-se a impor intensidade ao momento
Desfrutar a embriaguez do efêmero
Diuturnamente buscar
A eternidade que está no gesto
É desvantagem certo gosto amargo
Como de uma ressaca prolongada
Sede frustrante que não sacia
O desgosto do muito que ficou por pouco
Saber que tudo vira inevitável nostalgia.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
O que eles querem
Dylan se desequilibrando da moto
Morrison inerte em sua banheira
Nietzsche em prantos abraçado ao cavalo
Os miolos de Hemingway numa remota fazenda
Barbosa cai um segundo atrasado na bola
Virginia mergulha com pedras no leito de um rio
Vestígios de sangue e de pó
Na fronha de um velho amigo morto
Uma linda garota com a maquiagem borrada
Despeja os excessos da noite
Debruçada na latrina do bar do Cabelo
Um santo deserta ao amanhecer
Um vira-lata uiva de fome
Belchior fecha a conta do hotel
Raul espera na poltrona
A cerveja que esquenta na mão de Hank
Lorca morto na mão de um fascista
Zé Ramalho indo a nocaute outra vez
Vim para tão longe
Trazendo minhas memórias comigo
As levo a passear
As distraio
Compro algodão doce e balão
Espantam-se com o rugir do oceano em Cascais
Flanam em Greenwich Village
Morrem de tédio no Tortoni em Buenos Aires
Deixam-se seduzir por um pederasta em Paris
Quando enfim as ofereço a última dose
E peço a da casa no boteco de Seu Auri
Elas me sussurram o mesmo
O de sempre:
“Você consegue fugir de tudo
menos de si”.
(Homenagem ao “que eles querem” de Bukowski)
Morrison inerte em sua banheira
Nietzsche em prantos abraçado ao cavalo
Os miolos de Hemingway numa remota fazenda
Barbosa cai um segundo atrasado na bola
Virginia mergulha com pedras no leito de um rio
Vestígios de sangue e de pó
Na fronha de um velho amigo morto
Uma linda garota com a maquiagem borrada
Despeja os excessos da noite
Debruçada na latrina do bar do Cabelo
Um santo deserta ao amanhecer
Um vira-lata uiva de fome
Belchior fecha a conta do hotel
Raul espera na poltrona
A cerveja que esquenta na mão de Hank
Lorca morto na mão de um fascista
Zé Ramalho indo a nocaute outra vez
Vim para tão longe
Trazendo minhas memórias comigo
As levo a passear
As distraio
Compro algodão doce e balão
Espantam-se com o rugir do oceano em Cascais
Flanam em Greenwich Village
Morrem de tédio no Tortoni em Buenos Aires
Deixam-se seduzir por um pederasta em Paris
Quando enfim as ofereço a última dose
E peço a da casa no boteco de Seu Auri
Elas me sussurram o mesmo
O de sempre:
“Você consegue fugir de tudo
menos de si”.
(Homenagem ao “que eles querem” de Bukowski)
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
A mais bela das árvores

Há nas costas de uma bela garota a mais bela das árvores grafada,
A imponente copa emergindo do tronco não produz sombra,
Tampouco de lá se apresentam razões frutíferas,
Mas ao pesquisador atento é ofertado o singelo serpenteio de passos hesitantes,
O florescimento de augustos sorrisos,
Delicadamente acoplados em umbrais vicejantes;
Há nas costas de uma bela garota a mais bela das árvores grafada,
Impassível de catalogação,
Recusou para si nome científico,
E não atende pelo nome popular,
Embora na densa flora das multidões se eleva,
Embebido em orvalho transpirado,
O mais sedutor e embriagante tom de canela;
Há nas costas de uma bela garota a mais bela das árvores grafada,
Inacessível ao suplício de Serras,
Indiferente aos anseios de Machados,
Recolhe-se para tombar em inauditos lençóis,
Soerguendo-se seja na aurora das manhãs,
Ou no poente, a desdita de todos os sóis;
Há nas costas de uma bela garota a mais bela das árvores grafada,
Exultantes meus olhos margeiam,
A única árvore sem outono,
Sobrevivente das estações femininas,
Habitante de um latifúndio sem dono.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quinta-feira, 30 de maio de 2019
A depressão do amor
Deu no rádio em cadeia nacional,
O novo velho governo tirou o amor de circulação,
Como medida da mais asséptica austeridade...
Explica o Ministro empertigado,
Em polvorosa,
A gente desprevenida pôs-se a revirar os bolsos,
Arreganhar gavetas e levantar colchões...
Sob o espanto de seus maridos,
Recatadas esposas revelam paixões,
Reavivam desejos ocultos e taras incontidas,
Até o padre tinha lá das suas reservas,
Casais de enamorados contabilizam suas economias,
E o mais rechaçado dos feios se encontrou afortunado.
Não tardou para que a fila em torno do banco,
Completando inúmeras voltas,
Apinha-se desesperados com cartas e bilhetes em punho...
E eu que tão pródigo de quereres fui,
Me guardei até o derradeiro instante,
Perdi o tempo hábil do desvalido escambo,
E me deparei com papeis inúteis.
De que serve o amor quando já impassível de oferta?
Há quem interessa tais demandas?
Deitei-o em uma arca com notas de cruzeiros,
Embrulhei pão e peixe,
Forrei meus calçados rotos,
O que ainda sobrou guardo inconfesso,
Na espera de que um dia,
Um mísero dia,
Se torne item de colecionador.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
sexta-feira, 10 de maio de 2019
Receita para ser um herói
Para ser um herói
Um super-herói
É preciso mais que músculos
Mais que uma cueca por cima
Das calças
É forçoso ter espírito
Indomável e imberbe
Na defesa
De todas as causas
Que interessem ao bom público
E a indústria petroleira
Para ser um herói
Um super-herói
É necessário ter uma mocinha
De lábios carnudos
E sorriso faceiro
De vez em quando permitir ser heroína
Emprestar o escudo
Compartilhar suas certezas
Guardar foto dela
Recortes de gibi
Dentro de sua algibeira
Para ser um herói
Um super-herói
Recomenda-se ter inimigos
Muitos
Da mais inconteste vileza
Aos quais não se deve permitir
O mínimo gesto de bondade
Dubiedade
Ou fraqueza
Não é fácil levar democracia ao mundo
E ilusões até as aldeias
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
As travessuras da menina má [Dom Casmurro e o Leiteiro]
Não sei se foi Dom Casmurro ou o leiteiro que me atentou para o risco que todo homem enciumado experimenta: contaminar de uma astúcia, até então inexistente, a mulher alvo de sua desconfiança.
Ou seja, o corno por antecipação, em sua ânsia, acaba por esquentar o leito de sua própria desventura, ainda que bem advirta Caetano sobre a desnecessidade de se falar da malícia de toda mulher.
Me cai tardiamente em mãos um Vargas Llosa, já oitentão, passando em revista as agruras de Ricardo e seu amor bandido pela chilenita, ou Lily, ou Arlette, ou madame Arnoux, ou Mrs. Richardson, ou Kuriko, ou apenas a menina má em suas inúmeras metamorfoses e travessuras, desde as lembranças idílicas de uma infância nos anos cinquenta em Miraflores, bairro nobre de Lima, passando pela Paris revolucionária dos anos sessenta, a efervescente Londres hippie dos anos setenta, a exótica Tóquio com seus mafiosos impiedosos e a Madrid em transição política e social nos anos oitenta.
Ao longo da vida, Ricardo é constantemente revisitado por essa mulher de mil faces que toma de assalto a inércia de sua vida desprovida de maiores ambições e aventuras, sempre deixando-o ao final desolado e a ver navios, mudando-se apenas o cenário e tempo de cada desdita.
O tema da perfidez feminina é mais velho que o mundo e a posição de sentar (do gênesis aos boleros de açougueiro), mas em Llosa a infidelidade da mulher ganha outra nuance, bem distante da sisudez machadiana.
O curioso é que aos poucos, em cada golpe e deslealdade, mais vamos nos identificando com a sordidez de Lily, seu pragmatismo que se recusa a amar e demonstrar sentimentos, mas que se deleita, ainda que faça pouco caso, das breguices e da paixão obsessiva de Ricardo.
A verdade é que nenhuma das vilezas da menina má se comparam com as humilhações que experimenta ao longo da vida pelo preço que paga por ser livre, desde a pecha de uma infância miserável convivendo com a arrogância e preconceitos burgueses, até a violência sexual que se submete petrificada num mundo construído pelos homens e para os homens, onde a cobiça, seja pelo poder ou lascívia, a tudo domina e devora.
Interessante é que as travessuras da menina má foram publicadas pouco depois das memórias das putas tristes de Garcia Márquez, outro quase oitentão na época, ambas as obras seriam o canto do cisne de seus respectivos autores se não fosse a longevidade intelectual e produtiva de Llosa que lhe rendeu frutos posteriores.
Aqui a cisão dos dois maiores escritores hispano-americanos (ao lado de Borges) vai além da notória diferença política (Llosa coxinha – Márquez mortadela), a forma como as mulheres são retratadas chegam a ser antagônicas: se no colombiano a figura feminina é insondável em seus silêncios, idealizada sempre enquanto alvo passivo e necessário da pulsão masculina, no peruano ela é voluntariosa, confunde no que diz e é intraduzível no querer e nas birras que movimentam a vida, indiretamente, afetando o destino de todos.
Na peleja do homem bobo devotado e da mulher dissimulada há algo muito belo e humano que volta e meia nos escapa. O que poucos homens estão dispostos a compreender é que a rebelião feminina, que se recusa a adequar-se aos padrões de afeto e moralidade, a mulher que salta do pedestal onde séculos, da religião ao romantismo, a encastelaram num tedioso papel de musa ou figura sacra, também liberta o homem e seus paradigmas aprisionantes e aprisionadores, nos retira da modorra e do tédio do papai-mamãe, nos tira do lugar comum, do tédio de um arquétipo engessado de casal e relacionamento.
É preciso uma vida inteira para que Ricardo entenda o seu amor e sua amada, não se sabe ao final se o seu êxito decorre de sua paixão fervorosa ou apenas de sua condição resoluta, pois sabe que se sofre com ela, pior fica em sua ausência.
Assim a conquista, meio sem querer, a atinge sem bússola ou fórmula, vence por pontos quando compreende que o charme e beleza de sua amada estão justamente em seus caprichos, como o mar, uma fêmea traiçoeira, dessas que dizem “sim, mas não”, “não, mas sim”, como vaticina o velho esfarrapado que conversava com o Pacífico, sempre consultado pelos engenheiros peruanos antes da construção de qualquer quebra-mar, já que suas previsões inexplicáveis eram muito mais acertadas do que qualquer outra que empregasse toda a lógica ou matemática existente.
Bem-aventurado o que teve uma bandida em sua vida, como a Rosa de Chico, que sai pra comprar cigarro e some, que troca o nosso nome, que arrasa o nosso projeto de vida e que nos perdoa por nos trair. Bom mesmo é ser homem de malandra.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
terça-feira, 30 de abril de 2019
Tributo ao Belchior [O bardo e o entregador de gás]
Não sei se foi Belchior ou o homem do gás que me disse que viver é melhor que sonhar, mas em tempos difíceis sem um sonho (também sem uma cachaça) ninguém segura esse rojão. Em dois mil e dois o Brasil era outro e este que vos escreve, evidentemente, também (se Heráclito tiver razão do último banho pra cá já não sou mais o mesmo). Naquele ano o escrete canarinho seria campeão do mundo de futebol pela quinta vez e um torneiro mecânico, vindo do movimento sindical, seria eleito Presidente da República, sob a desconfiança do mercado e euforia do povo.
Contando treze pra quatorze anos, minha vida se resumia na rotina idílica de estudante ginasiano no colégio franciscano em Juazeiro do Norte, Ceará. Aula, bola, bicicleta, missa e gibi. Por aquele tempo eu e meu amigo e colega de sala Mikkael Duarte, hoje renomado psiquiatra cearense (enquanto eu renomado doido), adquirimos o hábito de visitar a Nobel, então única grande livraria na região. Sem um puto no bolso e vontade de desvendar aquele mundo de autores e ideias que se descortinava diante da curiosidade juvenil o jeito era dissimuladamente folhear obras como quem tem dúvidas sobre o que comprar, ler páginas sob o olhar desconfiado dos funcionários e guardar os exemplares de volta para a prateleira no aguardo de nova investida furtiva (ainda não tinha coragem de furtar livros). Foi em nossa homenagem que apregoaram uma placa com os dizeres “proibido ler obras na íntegra e tomar anotações”. Só faltou o “isso aqui não é biblioteca”. Não preciso dizer que nosso meio de leitura era lento e parcimonioso, como quem come de bico os grãos, talvez por isso hoje o meu trauma em não poupar gastos com livros e ler sempre de uma sentada qualquer obra, por mais volumosa que seja.
Numa tarde de dia de feira, sem pouco público, um movimento anormal e repentino se fez com a chegada de uma imponente figura que até então eu só conhecia das capas de discos e cds, Belchior e sua voz trovejante, sua presença de um magnetismo que poucas vezes percebi em alguém, estava diante de nós para uma sessão de autógrafos. Pegos de surpresa, sem tempo de voltar em casa e apanhar algo autografável, sem dinheiro como sempre pra qualquer coisa, pagamos centavos por uma folha de papel sulfite e nos pusemos como primeiros da fila que logo se formava.
Ainda não era o Belchior desaparecido, muito menos procurado, embora já então alguns vestígios de sua contínua deserção já se notavam. O último álbum autoral “baihuno” já completava quase dez anos, “vício elegante”, em que interpreta em sua maior parte outros compositores, seis anos. Seus maiores interesses eram então a pintura e a poesia, a música e o show business estavam de escanteio há muito. Antes de chegar minha vez fiquei absorto não apenas na figura, mas na beleza e elegância do seu traço empunhando uma nanquim dourada. Eu então desenhava e aquela era a caneta dos sonhos de qualquer artista liso. O encontro foi rápido, sorriu talvez surpreso por um fã tão novo na fila, perguntou pelo meu nome e riu do “Juan com J”, riu mais ainda quando comentei sobre a caneta e disse que só não me dava pois não teria com o que autografar. A verdade é que Belchior era até então uma voz, entre tantas outras, que embalavam nosso gosto musical ainda em formação. Confesso que sua retórica sarcástica e seca então não fazia minha cabeça como um Chico, um Gil, ou um Caetano. Foram precisos muitos porres, desilusões políticas, existenciais e amorosas, para que aquele canto torto feito faca cortasse minha carne em todo seu sentido, até que eu entendesse a minha “solidão, o meu som e a minha fúria e essa pressa de viver”.
Belchior marcou não só a mim, mas o que posso chamar de minha geração, ou simplesmente a quem carinhosamente chame de “os meus”. “Sujeito de Sorte” foi a trilha sonora de minha viagem para Machu Picchu. Chorei nas margens do Sena em Paris cantarolando “tudo outra vez”, “minha fala nordestina quero esquecer o francês”. Recentemente revi vídeos de reuniões com amigos, ainda adolescentes, ao som de um violão cortando “a palo seco”. Belchior era tão próximo que nunca nos fez caso o estardalhaço de seu desaparecimento. Inconscientemente segui os seus passos errantes pelos lados do sul, atravessando a fronteira dos pampas “onde um tango argentino me vai bem melhor que um blues”. Belchior foi, é e sempre será um ponto de fuga onde convergem as paralelas de nossas existências.
Foi num trinta de abril como esses, há dois anos, acordando no sítio do meu sócio e amigo Érico Gonçalo, depois de um porre homérico tomado com meu também amigo e colega Breno Messias Leite (outro fã incondicional do bigodudo) que ainda grogue liguei a televisão pela primeira vez depois de dias e dei de cara com a manchete inevitável, a que anuncia a única certeza derradeira. Incrédulo fiquei diante da tela, enquanto Breno expurgava os excessos da noite anterior no banheiro ao lado, até este me apareceu ao lado e só me foi possível murmurar: “Belchior morreu”. O ogro ainda limpando o vômito nas mangas somente pode exclamar um “puta que o pariu”.
O celular não pegava nas bandas bucólicas em que nos achávamos e somente na volta pra cidade, ao primeiro sinal, fui acompanhando as chuvas de mensagens e avisos de ligação perdida. Como se eu tivesse perdido um ente muito próximo e não estivesse dando sinal de vida preocupei muita gente que acreditou que eu aproveitara o bonde. Demorou a ficha a cair, “se sob o sol nada mais velho e vil que a morte, quem viu, na vida, novidade em estar vivo?”. Foi só quando velhos amigos que foram ao velório em Fortaleza e gravaram um coral de crianças cantando “comentários a respeito de John” que as lágrimas cancerianas jorraram sangrando como açude ou barragem próspera. Meses antes, em Manaus, conseguimos realizar uma homenagem ao bardo no bar do Cabelo, minha embaixada, meu ponto de exílio, onde em várias madrugadas o dono homônimo coloca o Bel pra tocar aos poucos bêbados e boêmios como prêmio aos sobreviventes.
Ainda será preciso uma ruma de gerações até que situem Belchior no seu devido lugar na história da música e da poesia, o que ele nunca parece ter feito questão, mas justiça deve ser feita num país sem memória como o nosso, onde, em tempos de democracia, elegemos nostálgicos de ditaduras, o que faz suas letras mais do que atuais. Embora eles tenham vencido “e o sinal está fechado pra nós que somos jovens”, “não cantem vitória muito cedo não”, “sempre desobedecer, nunca reverenciar” deve ser o mote em tempos de lambe-botas de milico e fascismo escancarado. Não é preciso que nos digam “de que lado nasce o sol, porque bate lá nosso coração”. Enquanto isso, “até mais ver meu camarada”.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quinta-feira, 25 de abril de 2019
Veleidades
Desarmou meu couraçado
Grudou minha língua ao palato
Incendiou-me as pálpebras
Empenhou meu sono
Distribuiu meus discos na feira
Atirou meus livros da sacada
Preparou meu galo de estima
Com quiabo
Guisado
Fez troça do meu pau
Profanou meu rito
Publicou meu diário
Babujou meu almoço
Sustou meu cheque
Afundou minha nau
Ensurdeceu ante minhas súplicas
Me ensinou todos os tons
E todas as nuances
Do mais solene e indiferente não
Cortou minhas ceroulas
Deu-me como morto ao jornal
Comemorou abraçada ao inimigo
Rasgou minhas cortinas
Sumiu ao primeiro raiar da manhã
Torou em fúria os cabelos
Sujou meu crediário
Dedurou-me ao fisco
Beijou o escudo rival
Quando enfim fatigado
Rendido
Extenuado
Perguntei-lhe a causa
Motivo
Circunstância
Ou razão
Fez o bico que me encanta
Torceu os lábios
Acentuou as doces covinhas
E murmurou:
Não sei ao certo
Raiva, desgosto ou
Capricho
Vai que é só o meu jeito
Discreto
De te chamar atenção
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quinta-feira, 11 de abril de 2019
Receita para que os Homens Melhorem [Wood Allen e o Confeiteiro]
Não sei se foi Wood Allen, ou meu confeiteiro, que uma vez me alertou do contraste entre a mulher e o homem nus, a primeira é uma deusa, uma obra de graça e inspiração da natureza, o segundo não passa de um pêndulo desajustado. O abismo não para por aí, vários relatos de amiga(o)s reconhecem que gostar de homem não é escolha, se fosse estaríamos fodidos, ou desprovidos de foda qualquer.
O homem não passa de um mal necessário para a perpetuação da espécie. Precisaremos boicotar qualquer pesquisa que crie uma forma de reprodução que não nos envolva se pretendermos nos manter por aqui sob uma justificativa lógica antes que descubram nossa insólita e evidente inutilidade, não sendo o bastante ainda abusamos de nossa prescindibilidade.
A lei de falências estabelece que o empresário falido e não reabilitado fica proibido de exercer a atividade empresarial enquanto não for dada por cumprida toda uma série de obrigações pendentes. E se nos relacionamentos fosse assim? Se aos homens fosse dado ou permitido se enamorar novamente ou ensaiar o cortejo de um novo amor somente mediante a prova de quitação das pendências anteriores? Talvez isso nos ajudasse a melhorar.
Nem me refiro ao cumprimento das grandes promessas e juras, a utopia da fidelidade e do amor eterno não alcançadas [deletar esse trecho na revisão final pra não ter encrenca com a patroa], em verdade, não são a causa essencial da bancarrota e do declínio das relações.
O amor se estrepa nas pequenas coisas, como diria Drummond, sendo minado e corroído nas pequenas frustrações e desenganos, nas mais miúdas coisas que somos relapsos, e friso, somos todos relapsos, inclusive a mim, pois dos meus conhecidos só vejo campeões em tudo, sensíveis desconstruídos ou touros reprodutores incompreendidos, todos nós incapazes de reconhecer uma falta sequer. E teria maior prova de amor para a nova amada que acordar pela manhã e em nome dela dar a cumprir como os doze trabalhos de Hércules as pequenas promessas não cumpridas para os ex-amores?
Levar Tereza ao cinema (sim Tereza não foi levada ao cinema por inúmeras procrastinações), ensinar Bruna a andar de bicicleta e Pietra a nadar, cozinhar o tal do fillet mignon com batadas souté para Ana, conhecer os pais de Marisa, passar um final de semana em Paraty com Sofia, prestar atenção quando Clara arrependida fala da blusinha que bateu os olhos e não comprou, vasculhar o guarda-roupa e descobrir o seu tamanho, comprar a famigerada blusinha, ir ao show do Djavan com Solange, não fazer Luísa esperar, comprar o que realmente Rebeca queria ganhar de aniversário, descobrir a música favorita de Estela, ver “sempre ao seu lado” com Bianca, ouvir mais Amanda.
Talvez, mas só talvez depois disso, poderíamos voltar a nos indagar, sem cinismo, a clássica questão que aflige nossa raça desde nossos ancestrais: afinal, o que querem as mulheres?
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quinta-feira, 4 de abril de 2019
Crônica dos ventos do norte (Ou de Sêneca e o barbeiro)
Não sei se foi Sêneca ou o meu barbeiro que disse que não há vento favorável para quem não sabe ao certo aonde deseja ir. O certo é que há uma curiosa e obscura relação entre as paixões e os ditos ventos do norte, estes ventos que não conhecem meio termo. Somem por dias a fio em terras amazônidas, não oferecendo a menor brisa ao angustiado transeunte, ou aparecem em revoadas de destelhar casas e levantar saias de moças.
Bóreas, que significa vento do norte, ou devorador, era na mitologia grega o deus do vento frio do Norte que trazia o inverno. Bóreas é geralmente descrito como um idoso alado muito forte e dotado de um violento caráter. Os gregos achavam que seu lar estava em Trácia e descrevem uma terra ao norte chamada Hiperbórea que significa "para além de Bóreas". Nessa terra, as pessoas viviam em completa felicidade até a mais longeva das idades. Um dia, Bóreas se apaixonou por Orítia, uma princesa ateniense. Apesar de tentar conquistá-la, a princesa fez pouco caso. Bóreas a raptou enquanto ela dançava nas margens do rio e levou-a numa nuvem de vento até sua morada. Impressionante como os deuses gregos são temperamentais e simplesmente não sabem ouvir um sonoro “não”. A reconciliação entre os cidadãos atenienses e o Deus veio quando, ameaçados pelos persas, clamaram por Bóreas que lançou ventos fortes fazendo afundar os barcos persas, sendo construído um altar em sua veneração junto ao Rio Iliso. Dos persas náufragos nada sabemos.
Em “Sangue Latino”, Secos e Molhados dizem que “os ventos do norte não movem moinhos”, o que o demonstra a impossibilidade do emprego da energia eólica, embora digam que é possível estocar ventos. Djavan fez uma canção intitulada “ventos do norte”, na qual diz “bem-vinda não sei de onde, não sei como apareceu, se foi dos ventos do norte, ou da maré que cresceu”. Dércio Marques, por sua vez, também tem sua “ventos do norte”, rica melodia e letra: “ventos do norte que trazem pra sorte a luz da manhã”. Ou seja, os ventos do norte trazem sorte e a pessoa amada em até três dias com frete grátis (exceto região Norte e Nordeste).
Kath Bloom em “come here”, a canção que toca em “Before Sunrise”, diz que “there's a wind that blows in from the north and it says that loving takes its course”. O amor é uma linha de ônibus ou trem, basta saber achar a rota certa, mas vai pelo vento do norte. Já Bob Dylan, cantando sua “girl from the north country” diz ao desavisado que “if you're traveling to the north country fair, where the winds hit heavy on the borderline, remember me too ne who lives there, for she once was a true love of mine”. Se tiver por tais bandas, já sabe.
E você, que bons ventos te trazem por aqui?
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
Crônica do Reino de Redonda
Não sei se foi Voltaire ou o bicheiro de minha rua que disse que o melhor governo é o qual há o menor número de homens inúteis, caso seja possível a inexistência de homens, melhor ainda. Em tempos de culto ao que havia caído em desuso (vitrolas, fitas K7, suspensórios, monarquia), considerando ainda o marasmo da modernidade desprovida de terras nullius a se conquistar, o caso do Reino de Redonda demonstra que de há muito, autoproclamações fictícias, como a de José de Abreu no Brasil e Juan Guaidó na Venezuela, são levadas em bastante consideração.
Para quem não está a par do assunto, o Reino de Redonda é uma nação fictícia (como qualquer outra) criada em face da ilha de Redonda, uma das tantas porções de terra desabitadas no mar do Caribe reivindicadas por Antígua e Barbuda. Com seu território não chegando a três quilômetros quadrados, o local carece de palmeiras e até de praias, sendo apenas um penhasco habitado por lagartos e talvez por alguma cabra. A região foi descoberta por Colombo, em sua segunda viagem para a América, não se dignando o conquistador sequer a desembarcar na ilha, apenas a nomeando Nossa Senhora da Redonda.
A origem do reino seria proveniente do escritor de ficção científica M.P. Shiel que teria propagado a anedota de que seu pai, Mattew Dowdy Shiell, um banqueiro de Montserrat, comprara a ilha em 1865, por ocasião do nascimento de seu rebento, tendo rogado da Rainha Vitória a sua proclamação como rei do local, o que foi concedido pela generosa majestade (Thank you, Queen, como diria Bolsonaro), sob a condição de que não houvesse nenhuma prática política contrária aos interesses coloniais britânicos. Assim, M.P. Shiel, agora Filipe I de Redonda, assumiu o trono em uma cerimônia naval presidida pelo Bispo de Antígua.
O maior legado de Shiel (Filipe I) foi a engenhosa ideia de criar uma aristocracia literária, concedendo diversos títulos nobiliárquicos para escritores como H. G. Wells, Dylan Thomas e Henry Miller, efetivando assim algo próximo do ideal platônico concebido na obra “A República”, mas em uma monarquia. Seu reinado foi longo e pacífico, de 1865 até 1947, quando abdicou da coroa em favor de um pupilo seu, o também escritor, John Gawsworth.
Algo de podre no reino de Redonda passou a se sentir após a coroação de Gawsworth, agora João I, que dado a uma vida boêmia e repleta de farras, em diversas ocasiões de pindaíba, empenhou o título e a coroa fictícia provocando uma larga polêmica sobre a linha sucessória do reino. O consenso mais amplo aponta John Wynne Tyson (também escritor), ou João II, como o verdadeiro sucessor de Gawsworth. Tyson reinou até os anos noventa do século passado quando, cansado dos problemas inerentes ao cargo, abdicou da coroa em favor do escritor espanhol Javier Marias, após a leitura da obra “Todas as Almas”.
Paralelo ao que narra a historiografia oficial, Max Legget sustenta ser o verdadeiro monarca pois, durante uma temporada em Toronto na casa de seus pais, Gawsworth (João I) teria supostamente prometido aos anfitriões a coroa caso tivessem um filho varão. Por sua vez, William Leonard Gates, autoproclamado Rei Leo, alega ser o legítimo herdeiro do trono, porquanto John Wynne Tyson (João II) fora apontado apenas como executor literário de Gawsworth e que este teria, em verdade, nomeado Arthur John Roberts (o verdadeiro João II) como rei, o qual viria a nomear Gates como seu sucessor. Como prova de sua tese, Gates afirma estar de posse do Arquivo Real de Redonda, que indica oficialmente suas credenciais como regente, embora sempre tenha se negado a apresentá-las publicamente. Correndo por fora, ainda temos Robert Williamson, autonomeado Rei Roberto, o Calvo, nomeado por Wynne Tyson que, em um chá da tarde, ao confidenciar-lhe o interesse em abdicar em favor de Javier Marias, foi dissuadido do intento considerando a indigna ação de outorgar um trono vinculado ao Império Britânico em favor de um espanhol depois de tanto esforço dos ingleses em expulsá-los do Caribe.
Indiferente às intrigas de seus opositores e embora seja republicano, Javier Marias ou Xavier I, um dos mais cotados ao prêmio nobel de literatura em 2018 (se não fosse o prêmio ter sido suspenso após os escândalos sexuais nos bastidores da Academia Sueca), valendo-se da tradição literária de seu reino, passou a conceder títulos nobiliárquicos para escritores e artistas tais como Pedro Almodóvar (agora Duque de Trêmula), Pierre Bourdieu (Duque Desenraizado), Francis Ford Coppola (Duque de Megápolis), Umberto Eco (Duque da Ilha do dia Anterior). Vida longa ao rei, esperemos apenas que não se descubra qualquer potencial petrolífero na região sob risco dos Estados Unidos se inclinarem a levar democracia e liberdade ao lugar.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Crônica das Ruas (Borges e o Engraxate)
Não sei se foi Jorge Luis Borges ou um engraxate que me disse: “as ruas de minha cidade já são minhas entranhas”. Por costume interiorano, criado antes das facilidades tecnológicas, ou por minha alma de velho mesmo, adoro identificar ruas e memorizar seus respectivos nomes. Nasci na Rua Borba, mas logo fui levado para a Rua J. Carlos Antony; só em Manaus vivi ainda na Belo Horizonte, na Parintins, na Leonardo Malcher, na Constantino Nery, na Maneca Marques que também já tinha sido Grande Otelo e, bem antes, Perimetral. Vivi ainda na Rua Vitória em Fortaleza, na 22 de julho em Juazeiro do Norte, na Monsenhor Esmeraldo no Crato, na Alameda Jaú em São Paulo. Bem sei que é um costume que caiu em desuso, em tempos de GPS, nem os taxistas parecem ter o interesse em memorizar nomes de ruas e com isso ignoramos também um pouco de nossa história.
Que me perdoem San José na Costa Rica, where the streets have no name, bem como Brasília com suas siglas e números frios. Quando passei uma temporada em nossa capital federal fui obrigado a andar com uma espécie de código cifrado no bolso que entregava ao condutor na vã esperança de que me deixasse em minha morada provisória. Quanto desgosto! Me aferrava ao papel no temor infantil de perdê-lo e com ele qualquer chance de um dia encontrar minha própria casa.
Ruas precisam de nome, não precisa ser nome de gente importante, que se faça tal qual o pai de um amigo que, como servidor público, batizou uma rua não catalogada no Crato com o seu próprio nome para fins de registro administrativo. O nome fornece identidade, humaniza o impessoal, aproxima o improvável historicamente. O que José Clemente e Lobo D’Almada conversam na calada da noite na esquina em que se encontram? O que Saldanha Marinho tem a dizer ao Joaquim Sarmento?
Toda cidade que se presa no Brasil precisa de uma Getúlio Vargas, de uma Santos Dumont, Duque de Caxias, Dom Pedro (o I e o II), embora considere que precisemos bem mais de Avenidas Anita Garibaldi, Antonio Conselheiro, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Euclides da Cunha. Eu tenho um bairro todo projetado em minha mente, só falta quem o execute: que delicioso seria a Milton Nascimento encontrando a Mário Quintana ou a Chico Buarque desembocar na Alameda Lô Borges. Cruzando todas as vias teríamos o Boulevard de Los Suenos Rotos (ou Avenida Joaquin Sabina) seguindo em paralelo com a Positively 4th Street.
Antes de viajar para alguma cidade ainda desconhecida trato de conhecer o mapa da região principal e memorizar o nome das ruas. Graças ao costume, andei por Havana e sua Ciudad Vieja como um velho visitante e sei quantas ruas cortam a Calle Obispo, entre elas a Calle Cuba onde me hospedei, assim como sei quantas ruas cortam a São Benedito em Juazeiro do Norte, cidade mais católica impossível tendo como ruas principais São Pedro e Paulo e quando esgotado todo o rol sagrado tascaram uma Rua Todos os Santos. O sincretismo é inevitável já que toda rua tem suas encruzilhadas.
Com o tempo temos nossas ruas prediletas, por razões e memórias afetivas em regra geral, outras por paixão gratuita só pela beleza do lugar. Como eu amo a Monsenhor Coutinho, a Carmen Miranda e a Rua dos Barés em Manaus, a Calle Soriano (a mais bela no outono em Montevidéu), a Serrano em Buenos Aires, o Paseo del Prado em Havana, a Apeninos e a Consolação em São Paulo, a Dom Pedro em Juazeiro do Norte, a Rua da Saudade no Crato, a rua da Estrela e a Afonso Penna em São Luis, a Dom Pedrito em Porto Alegre, a Divinópolis e a Paraisópolis em Belo Horizonte, a Rue D’Orsay em Paris, a lista é extensa. Minha paixão por ruas é tamanha que fiz uma amiga em visita à Cidade do México encontrar e conhecer a famigerada Calle Bucareli tão narrada pelo escritor Roberto Bolano.
Ainda existem muitas ruas que compõem meu imaginário afetivo e poético que pretendo conhecer ou revisitar. Não alimento nenhuma expectativa do gênero, tampouco pretensão, mas se quisessem me homenagear de bom grado, ainda que postumamente, que batizassem uma rua com meu nome. Não exijo nenhuma avenida principal ou boulevard florido, bastava uma simples travessa. Já até imagino um transeunte perdido recebendo a resposta esclarecedora: "Você pega a Juan Pablo Gomes direto e dobra na segunda à esquerda".
Na verdade, não precisaria levar a algum lugar, poderia ser um beco sem saída mesmo. Todos desejamos nos perpetuar de alguma forma, embora essa seja a mais singela forma de ser esquecido, como na canção do Clube da Esquina: “Passa bonde, passa boiada/ Passa trator, avião/ Ruas e reis/ Guajajaras, Tamoios, Tapuias/ Tubinambás, Aimorés/ Todos no chão/ A cidade plantou no coração/ Tantos nomes de quem morreu”... Quem hoje sabe quem foi Quintino Bocaiuva? E você? Que rua jamais esquecerá?
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
Um céu com preás e sem homens sórdidos
Não sei se foi Mark Twain ou o carteiro de minha rua que me garantiu que todo cão é um cavalheiro e que preferia o céu deles ao dos homens. Um céu de preás, como o da cachorra Baleia de Graciliano, me parece muito mais singelo e atrativo que qualquer concepção paradisíaca tediosa eleita pelos homens e suas metafísicas que não passam de chocolates, como diria Pessoa.
Cresci e vivi com estas criaturas que parecem ter vindo ao mundo para trazer um pouco de alento e doçura ao “horror” conradiano (que não sei se gostava de cães) de nossas existências. A primeira foi Monalisa, vira-lata da mais honrada estirpe, caçadora impiedosa de mucuras e outros seres que ousassem invadir nossas cercanias. Ela está presente na maior parte das minhas fotos de infância e foi minha melhor e única amiga por anos, companheira de um garoto asmático criado como filho único e que pouco saia de casa, tendo seu quintal como mundo particular e sua cadela como fiel escudeira. Ainda na infância tive o Lupicínio Rodrigues, ou o Lupi, um dócil e bobo vira-lata com traços de pastor alemão. Todos se foram, atropelados pela vida, essa miserável e ingrata vida.
Muitos anos depois, no meu primeiro casamento, veio o Julien Sorel, ou só Julien. O plano inicial era uma fêmea shar-pei, mas todas que apanhamos na ninhada do canil choramingavam muito e pareciam assustadas. Peguei um machinho como quem não quer nada, quase cabia na palma da mão e ele se desmanchou todo no meu colo. Muitas vezes não escolhemos o cão, ele nos escolhe. Se fosse contar todas as histórias do Julien renderia um livro. Como quando ele ficava cabisbaixo no pé da porta nos esperando voltar para casa. Como quando ele escapou quando abri o portão e eu tive que ir para uma audiência com o terno todo enlameado por conta do resgate. Como quando ele via os jogos do Corinthians comigo e até hoje rosna e tenta morder o atual marido são-paulino da minha ex-mulher ao comemorar gols do tricolor paulista.
Há menos de dois anos veio o Nicolai Vasilievich Gogol, ou simplesmente Gogol. Um husky siberiano em Manaus não estava nos planos, mas aconteceu. Na primeira noite no apartamento já definira seus lugares favoritos no mundo: aos meus pés no chão gelado do quarto em dezoito graus (haja ar-condicionado) enquanto eu escrevia madrugada adentro ou no suporte inferior da porta da geladeira quando alguém desavisadamente a deixava aberta tempo suficiente para ele pular para dentro. Hoje não cabe sequer num freezer, assim como todo seu amor.
Existem outras fofuras em minha vida que não podem passar sem nota: como o Bruce, o pug destemido da Aline Nobile, em nossa relação de amor conquistada através de subornos e propinas furtivas como pedaços de pizza, pão, calabresa e outras delícias oferecidas sigilosamente fora do olhar de sua severa mãe. Temos Joelma, a lambedora incansável de cadelas de bêbados, filhinha dos meus amigos Tarsizio e Mariana. Vale o registro da bela matilha formada ainda pelo meu amigo Guaraciaba Tupinambá.
“Por tanto amor, por tanta razão”, confesso a fraqueza de ser incapaz de ver filmes, notícias ou qualquer coisa triste que envolva cães. Nós não os merecemos é bem verdade. Muito deveríamos aprender com eles, como bem sabia Diógenes, que se utilizava do comportamento canino para pautar toda sua ética e moral. Os cães sabem instintivamente diferenciar amigos de inimigos: para os primeiros toda a lealdade e favores, aos segundos rosnadas, mordidas e rigores. Das anedotas sobre Diógenes surgiram os termos “cinismo” e “cínico”, que derivam da palavra grega “knykos”, que por sua vez significa cão. Assim como ser maquiavélico, ser cínico não quer dizer necessariamente algo ruim. Ser comparado com um cão muito menos.
Segundo Diógenes, os humanos, em sua hipocrisia, vivem artificialmente, enquanto poderiam aprender com os cães que realizam todas as suas funções corporais em público, comem o que é necessário e dormem no mínimo de comodidade, vivendo um eterno presente, mas sem, contudo, enganarem uns aos outros ou se corromperem.
Quão corrompido é o homem que mata um animal indefeso cumprindo cegamente ordens de seu superior? Quão frio pode ser um homem que determina a morte de um ser inocente em nome da assepsia e bom funcionamento da máquina capitalista?
Espero sinceramente que o Senhor das Esferas faça o favor de dar vitória teológica aos defensores da tese de que animais têm alma e, por conseguinte, céu. Um céu de preás, bolas, ossinhos e guloseimas. Um céu com um campo verdejante para que corram livres e alegres sem qualquer sombra de dor ou suplício. Eles merecem. Nós homens, eu já não sei. Fico nesta vida com a mais sublime forma de alegria e felicidade: um cão contente lambendo nossa face.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
Somente os casais fitness são felizes
Não sei se foi Bukowski ou entregador de pizza que me disse que o amor é bom somente para os que aguentam a sobrecarga psíquica. O certo é que somente os casais fitness são felizes. Daqueles que fazem selfie no espelho do elevador, dividem receitas de detox e sabem as inúmeras variações do açaí com granola.
O dueto possui um léxico próprio que envolve stand-up, sup, namastê, gratidão. Importante ter fotos juntos no perfil, mesmo sendo de graça a conta no facebook. Feita a fusão dão ao mundo o novo ser ou entidade: o casal.
Casal que malha unido, permanece unido. Construíram uma imagem ideal um para o outro e se conseguirem permanecer correspondendo ao paradigma montando continuarão unidos; provavelmente não, mas melhor não revelarmos ainda, sem spoiler.
Existe um outro tipo de casal, que fatalmente não será feliz (pois somente os casais fitness são felizes), mas que me parece maravilhosamente mais interessante.
Ele se olha no espelho e conta mais um dedo de espaço na testa amargando as entradas precoces, como se não bastassem os cabelos brancos, olha pra baixo e registra mais um dedo de barriga também. Ele promete parar de beber pela milésima vez, promessa que dura enquanto surtem os efeitos da ressaca.
Ela acorda sem voz, rouca, por ter fumado e falado na noite anterior feito uma apresentadora de programa vespertino de auditório. Ela promete pela milésima vez que vai parar de fumar, ou de teimar nos mesmos assuntos. Sempre está por perder três quilos. Ela possui aquela gordurinha lateral na cintura, linda, chamada de cartucheira, ou para os íntimos, alcinha do amor. No fim da noite contabiliza estrias e celulites aquelas coisas que nós homens ignoramos completamente (junto com o clitóris).
O último casal pode até não ser feliz, já que somente os casais fitness são felizes, mas podem experimentar de vários raros momentos de distração, como diria Guimarães Rosa, se souberem permanecer distraídos, como diria Clarice (a Lispector, não a Falcão), se aprenderem a rir de si próprios e um do outro, se passarem da fase do exigir para o dar sem conta, sem ideais ou ideações.
Não, ele não vai parar de beber. Não, ela não vai parar de fumar. Ele tenta, mas continuará sendo machista, um pouco mais descontruído se houver esforço, verdade, mas sem perder aquele ranço de beatnik tupiniquim. Ela, Beauvoir com rebolado, continuará insegura, continuará fumando, continuará pagando a conta do mundo de ser mulher, vai continuar a ser a teimosa ou a louca dos gatos. Contudo, quando ela vomitar ele estará ao lado segurando seus cabelos e quando da mais simples gripe ele exigir extrema unção e pompas fúnebres, ela estará ao lado também.
Mesmo que somente os casais fitness sejam felizes, isso não quer dizer que o barrigudo indulgente e a maluca dos gatos estejam fadados ao fracasso. Basta que experimentem juntos a chamada meia noite da alma, quando passamos a fazer a contabilidade de nossos erros e acertos da maneira mais sensata e realista possível, sem pedaladas otimistas ou os delírios juvenis megalomaníacos, nem o remorso e a culpa constante do que não conseguimos ser.
Se ambos conseguirem não exigir do outro, nada além da tentativa de ser simplesmente o que é, nem que seja um tentar ser o melhor para si e para o outro, a única dor no abdômen que sentirão é a dos risos a dois.
Quem sabe até ela o faça pegar o violão e o convença a voltar a tocar dizendo: “meu amor, vá além daqueles que cantaram que a tempestade que chega é da cor dos meus olhos castanhos”. Quem sabe ele secretamente inclua linhaça no suco pois pesquisou e dizem que faz bem e ele quer muito, mas muito, ficar mais um pouco com ela. Quem sabe passem a comer a salada no rodizio. Quem sabe uma becel...
E como o ser humano não é estanque, estamos em contínuo movimento e transformação, como Heráclito preferia ser, já na Grécia Antiga uma metamorfose ambulante, quem sabe os dois não se deliciem com as modificações um do outro, desde o corte de cabelo até os interesses mais triviais.
Eles não foram o primeiro amor um do outro, os discos, os livros e memórias estão cheios de presenças distantes de outros que passaram, pouco importa, “eles passaram e passarão, você passarinho”. Quem sabe assim, ela a eterna gatinha, ele o eterno crush, poderão experimentar algo inefável que alguns teimam ainda em chamar (por não haver outro nome) de felicidade.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Hoje por mim os sinos dobram
Quem me dera contemplar a cena
Das horas minhas depois de findo
Implodido pelo coágulo exato
Ou colhido pelo condutor precipitado
Ao atravessar a via distraído.
Quem me dera contemplar a cena
Mamãe a engomar meu paletó
Meu pai a polir a vã medalha
A bandeira corinthiana feita de mortalha
Minha irmã em prantos de dar dó.
Quem me dera contemplar a cena
A vizinhança se aproxima
“Tão moço, tanto por viver”
“Você chegou a conhecer”?
Minha tia a todos se lastima.
Quem me dera contemplar a cena
Da minha celebração nem tão concorrida
Maritza junto ao ataúde debruçada
Nayane aos meus pés desencantada
Luana sofre mais contida.
Quem me dera contemplar a cena
Esperava alguma delas sapatear no esquife
Ou qualquer outra extravagância
Mas o ego é luxo de quem vive
Morrer é não se dar tanta importância.
Quem me dera contemplar a cena
Keline não aparece, porém manda uma coroa...
Jurou cuspir em meu caixão
Eis que chegou à conclusão
De que não vale enfrentar tal fila à toa.
Quem me dera contemplar a cena
Servem as bolachas e o café
Lu proseia com Aline entorpecida
Distante, absorta, em pé
Ariadne fuma enternecida.
Quem me dera contemplar a cena
Uma hoste de ébrios invadindo a sala
“Até das lágrimas o álcool exala”
Acenaria em singelo gracejo
Aos confrades num último festejo.
Quem me dera contemplar a cena
Das informações acerca de minha morte
Que chegaram atrasadas em Lisboa
Onde Tainah imprime na mão um corte
Na sanha por um suplício que pior lhe doa.
Quem me dera contemplar a cena
No velório a amarga a ausência
De Hingrid infeliz que vai de tonta*
Em insaciável abstinência
Em nosso botequim fechando a conta.
Quem me dera contemplar a cena
Anne considerando a velha vitrola
De seu esposo se faz acompanhada
Há de ouvir nossa canção de outrora
Escapando um gemido embaraçada.
Quem me dera contemplar a cena
Kigenes ensaiando seu discurso
Lá de fora um cão ladra
Um menino pontapeia a lata
Valesca sufoca seu soluço.
Quem me dera contemplar a cena
A mão do frade me abençoa
“Cumpriu ele sua própria sina”
No campanário o sino ressoa
A vida irrompe em mais um dia.
Quem me dera contemplar a cena
Cavalheiros dispostos a oferecer consolo
A cada uma por mim amada
Sempre há de ter uma alma desinteressada
Essa meditação me oferece algum conforto.
Quem me dera contemplar a cena
Junto a uma adaga e branca luva
Deixo um bilhete fosco não endereçado
Como espólio num garrancho mal borrado
“Vês que já és minha única viúva”**.
* Referência ao poema "Dia da criação" do Vinicius de Moraes.
** Referência ao verso de Ruy Belo "tu és já minha única viúva".
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
terça-feira, 27 de novembro de 2018
Crônica do Retorno: A Síndrome do Amor Pré-Carnaval
Não sei se foi Graciliano Ramos ou meu lanterneiro que disse que a única certeza do homem na vida é a morte e a única certeza do brasileiro é o carnaval no ano seguinte. Novembro finda, logo mais é dezembro e o ano que vem... virá. Nessa altura do campeonato nossos concidadãos solteiros se dividem em duas facções mais distantes e irreconciliáveis entre si que bolsominions e petralhas, torcedores do icasa e do guarani: aqueles que desesperadamente esperam passar os festejos natalícios na casa da futura sogra e os que estão se guardando para quando o carnaval chegar.
Para uns é correr contra o tempo, contra o prejuízo. Mais aflito que cruzmaltino na eterna luta inglória contra o rebaixamento, em poucas rodadas é preciso realizar o que não foi capaz de fazer o ano inteiro. Menos de um mês para o famigerado date de approach (o jantarzinho no lugar legal), o segundo pra criar química e descontrair (o barzinho camarada), o terceiro pra finalmente transar (caso não tenha ocorrido ainda), o quarto pra começar a esquecer calcinha e outros objetos íntimos, o sexto pra escovar os dentes de porta aberta (cagar só depois de um ano), para finalmente vir o sétimo pra conhecer a família e carimbar o acesso na festa de natal mais cobiçada que a vaga na libertadores em reta final de brasileirão. Dependendo da gana é possível suprimir as etapas, cumprir os seis primeiros passos em um só, esquecer essa história de dois volantes, coisa mais carola-conservadora, jogar sem medo, jogar como Brasil.
Por sua vez, para os solteiros por convicção e fé o tempo não passa, chega a quaresma e o carnaval não chega. Maneira daqui, troca o salame pela alface acolá, projeto verão firme e forte, se olha no espelho, dá tempo de perder uns três quilos, abdominais depois da cervejada do dia anterior, não sabe o que dói mais: o crossfit ou a ressaca. O crossfit de ressaca, decerto.
Na vida é tudo uma questão de “time”, não o clube, aquele que é tido como senhor de tudo, em inglês mesmo, soa mais capitalista, mais pragmático que nosso “tempo” lusitano evocador de versos de Pessoa e canções de Nana Caymmi. Enquanto eu bebo um pouquinho pra ter argumento, penso no maior dos perigos aos que já planejam e anseiam o total desregramento dos sentidos nas festas momescas: a síndrome da paixão pré-carnaval. Ainda não catalogada, sem CID, terapia ou tratamento, a síndrome da paixão pré-carnaval afeta milhões de incautos promovendo inúmeras baixas nas fileiras de foliões todos os anos. Recorrente em meados de novembro, atinge seu ápice de contágio nos idos de dezembro e janeiro, apesar de haver registros de casos na quinta de esquenta carnavalesco.
Doença insidiosa, a paixão pré-carnavalesca começa sutil, assintomática. Começa quando se acorda pensando na morena ou no boy da noite anterior. Aquelas cinco curtidas seguidas em fotos antigas do instagram, os três amei nas postagens do facebook, a primeira retweetada a gente não esquece, depois vem a playlist compartilhada do spotify, a chamada sem querer no whatsapp quando vamos futricar a foto da pessoa pela quinta vez ainda pela manhã: - Me ligou? - Liguei sem querer, perdão.
Daí é um caminho sem volta, a agenda do final de semana organizada de acordo com os eventos que o-a @ marcou interesse, as primeiras músicas que irão compor a trilha sonora da nova paixão, a análise filmográfica: os filmes que você viu e o outro não, os que o outro viu e você não, os que ambos não viram, os que ambos viram e agora verão juntos. O resto é ladeira abaixo, trocam o número dos seus terapeutas, aproxima minha ansiedade da tua depressão, aconchega teu toc na minha bipolaridade. Passagens para Olinda canceladas na CVC, ainda tem a terceira parcela do abadá do bloco em Salvador por pagar, ou isso, ou acrescenta no pacote e vamos juntos, leva sanduíche pra banquete patrão, já está apaixonado(a). Soldado e guerreira abatidos. Quando o amor acontece é assim, e você que jurava mudar de calçada quando aparecesse uma flor e dava risada do grande amor: mentira.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Doce Mistério
O maior legado do Cristianismo incontroversamente se encontra nos feriados trazidos por si. Em contrapartida, além das guerras, conflitos e descaracterização de culturas, meu maior ressentimento se encontra no fato de terem estragado os domingos. Não que eu tenha vivido algum domingo A.C., mas tem muito relato por aí dizendo que o ”baalbado” era forte. Indo de encontro ao terceiro mandamento, não guardei meu domingo, até mesmo por não saber onde colocá-lo, e fiando-me em Êxodo e nos adventistas que dão moral pro sábado, fui enxugar umas garrafas no brega mais próximo.
Acomodado em meu assento de plástico (o fim das mesas de ferro em bares tirou todo o romantismo do abrir e fechar de mesas e cadeiras rangentes) como bom voyeur me detive em uma jovem gorducha, seminua, de olhar doce e tolo que percorria as mesas buscando encantar os indiferentes colegas de embriaguez dominical.
Não demorou para que a situação me lançasse em elucubrações sobre a decadência humana, a brevitude da existência, memento mori e as frescuras do renascimento. Eis que no som ambiente passa a tocar uma sutil introdução que me trouxe reminiscências longínquas.
Doce e tola como a feição da jovem, uma flautinha anunciava que vinha trilha sonora de dor de cotovelo por aí, a voz chorosa de Leonardo veio e confirmou:
Doce Mistério
Eu não sei de onde vem
Esse amor que chega e domina
Viva luz a brilhar
Nesse olhar que o meu ilumina
Vou flutuando na paixão
Não, não sei onde vou chegar
Quem será essa ilusão
Que eu vivo a buscar
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério de amor
Vou flutuando na paixão
Não, não sei onde vou chegar
Quem será essa ilusão
Que eu vivo a buscar
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério
O que eu quero é viver você
Quero sorrir o seu sorriso
Quero pensar os pensamentos seus
Você é tudo que eu preciso
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério
Diz pra mim se é você
Esse alguém que eu tanto quero
Eu preciso descobrir
Se é você meu doce mistério
Deu vontade de chorar. Leandro e Leonardo estão presentes em minhas inconfessáveis memórias de infância quando eu cantava a plenos pulmões “tira essa roupa molhada, quero ser a toalha e o seu cobertor!”.
O triste fim do dono da segunda voz da dupla, detalhadamente explorado pela mídia, o inconteste sentimentalismo carregado na voz de Leonardo, a jovem ignóbil, o brega, o domingo não guardado, as sagradas escrituras, o doce mistério, tudo reunido, me levou para um estado de espírito nostálgico e melancólico e me fez recordar de uma paixão esquecida.
A canção fez parte da trilha sonora da novela "O Rei do Gado", sendo tema da Lia Mezenga (Lavínia Vlasak em sua primeira novela) e Pirilampo (Almir Sater). Lavínia Vlasak de chapéu, camisa xadrez, minissaia e botinha destroçava meu jovem coração.
Além da introduçãozinha meiga, não falta o solo de guitarra apoteótico. A letra versa sobre um amor puro, impessoal, como também narra um desejo de ver o amor correspondido. O eu-lírico descreve um sentimento de origem ignorada, que o perpassa e o conduz vida adiante, vindo a questionar ao interlocutor (a) se neste (a) encontrará a correspondência tão buscada. Torna-se impossível não pensar no amour courtois medieval, no qual o amante (idealizador) aceita a independência de sua amada e tenta fazer de si próprio merecedor dela, agindo de forma corajosa e honrada (nobre) e fazendo quaisquer feitos que ela deseje.
Atenção, os trechos a seguir não passam de informação complementar inútil extraída do Wikipédia. Passe para a conclusão:
“Amor Cortês foi um conceito europeu medieval de atitudes, mitos e etiqueta para enaltecer o amor, e que gerou vários gêneros de literatura medieval, incluindo o romance. Ele surgiu nas cortes ducais e principescas das regiões onde hoje se situa a França meridional, em fins do século XI, e que se propagou nas várias que enalteciam o "Ideal cavaleiresco". Em sua essência, o amor cortês era uma experiência contraditória entre o desejo erótico e a realização espiritual, "um amor ao mesmo tempo ilícito e moralmente elevado, passional e auto-disciplinado, humilhante e exaltante, humano e transcendente".
Principais pontos
A teoria do amor cortês pressupõe uma concepção platónica e mística do amor, que pode ser resumida nos pontos abaixo:
Total submissão do enamorado à sua dama;
A amada é sempre distante, admirável e um compêndio de perfeições físicas e morais;
Os enamorados são sempre de condição aristocrática;
O enamorado pode chegar a comunicar-se com a sua inatingível senhora, após uma progressão de estados que vão desde o suplicante ("fenhedor", em occitano) ao amante ("drut");
Trata-se, frequentemente, de um amor adúltero. Por isso, o poeta oculta o objeto de seu amor substituindo o nome da amada por uma palavra-chave ("senhal") ou pseudónimo poético."
Eis a vida, assim vamos seguindo adiante, saboreando esse doce mistério.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Se você pensa que eu sou...

Caros Leitores,
O meu, o seu, o nosso aro esteve (pode ainda) estar ameaçado de extinção. Pensei em escrever um último post. Pode ser um adeus, um até logo, ou só um charminho.
Tem muita gente preocupada com o futuro da música. Todos ficam aterrorizados quando surge um "restart" da vida, que deveria ser "reset", mas o que mais me assusta não é isso.
Em terra de Luan Santana. Maria Gadú é MPB. Em terra de Restart, Detonautas é rock and roll.
"Shimbalaiê, quando vejo o sol beijando o mar
Shimbalaiê, toda vez que ele vai repousar
Shimbalaiê, quando vejo o sol beijando o mar
Shimbalaiê, toda vez que ele vai repousar"
Ah, uma jaula!
Por sorte, a música popular brasileira sempre se renova. Eis que, por exemplo, surge Juninho Portugal, líder do movimento cultural intitulado "D-JAVÚ".
Juninho Portugal é o codinome de Otto DelaCroix Guimarães e Coimbra Orleans Bragança Portugal Jr.
Herdeiro de uma das famílias mais abastadas da Europa. Juninho passou sua infância em sua casa na árvore, em Mônaco. Em razão da ausência dos pais, o garoto desenvolveu um espírito rebelde.
Aos 08 anos, falava 06 idiomas e tocava todos os instrumentos conhecidos na cultura ocidental.
Durante a juventude, o rompimento total com sua linhagem veio quando declarou para a família sua admiração por Napoleão Bonaparte.
Como castigo, seus pais o obrigaram a ser estivador na Ilha de Marajó, onde conheceu a Ninfa Calipso que lhe deu o dom da música sublíme.
Depois de aprimorá-lo em cabarés e inferninhos do Norte e Nordeste do Brasil, Juninho desenvolveu uma técnica única de gravar um disco com uma única faixa e um único acorde, sem que ninguém perceba.
Em suas andanças conheceu Geandson e Nádila, dois cantores que passaram a lhe ajudar em sua empreitada musical.
Quando os pais de Juninho souberam da situação do filho, resolveram interná-lo em um manicômio na Ilha de Elba, tendo o jovem conseguido fugir de lá depois de alguns anos.
Em razão disso, Juninho hoje se veste de soldado napoleônico comandando o exército sonoro que luta contra nossos tímpanos.
Ao lado dos companheiros Geandson e Nádila fundou o Dejá-vu, que é a sensação que temos quando ouvimos tal banda, algo como: "Eu já ouvi essa merda em algum lugar."
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Pimpinela: me esquece e pega o beco

Defenestrados Leitores,
Como veremos, existem mais coisas entre um aristocrata inglês, uma personagem da novela “Araguaia”, a minha primeira playboy e uma dupla argentina que fez sucesso no nos anos 80, do que sonha nossa vã filosofia.
Nos anos 80, uma canção em forma de dueto tomou as rádios latinoamericanas, sendo uma das mais executadas, principalmente nos cabarés de fronteira, de Tabatinga até Foz do Iguaçu.
Trata-se da canção “olvidame y pega La vuelta” da dupla de dois chamada Pimpinela, formada pelos irmãos Joaquin e Lucia Galán.
Os irmãos se destacaram por compor e interpretar de uma maneira muita peculiar, incluindo um ar teatral nas apresentações e com letras que narram situações cotidianas na forma de diálogo.
Não por acaso, as canções que retratam brigas típicas de casal alcançaram grande sucesso, passando a ser chamadas de “peleas cantadas”, marca característica da dupla.
Para os curiosos, “pimpinela” é uma planta aromática dos prados úmidos, com flores purpurinas, da família das rosáceas.
Pimpinela também é nome de uma presonagem da atual novela das seis, que passa às sete.
Pimpinela também se refere ao famoso Sir Percy Blakeney, aristocrata precursor de Schindler, que ajudou muitos colegas de sangue a fugir da guilhotina e de Robespierre.
Percy enviava a galera aristocrata para a Inglaterra, deixando-os em segurança, colocando no local, apenas uma pequena flor vermelha. Isso lhe valeu o apelido de o “Pimpinela Escarlate”.
Segue a canção:
Olvidame Y Pega La Vuelta
Hace dos años y un día que vivo sin él,
Hace dos años y un día que no lo he vuelto a ver,
Y aunque no he sido feliz aprendí a vivir sin su amor,
Pero al ir olvidando de pronto una noche volvió...
¿Quién es?
Soy yo...
¿Qué vienes a buscar?
A ti...
Y es tarde...
¿Por qué?
Porque ahora soy yo la que quiere estar sin ti...
Por eso vete, olvida mi nombre, mi cara, mi casa,
Y pega la vuelta
Jamás te pude comprender...
Vete, olvida mis ojos, mis manos, mis labios,
Que no te desean
Estás mintiendo ya lo sé...
Vete, olvida que existo, que me conociste,
Y no te sorprendas, olvida de todo que tú para eso
Tienes experiencia...
En busca de emociones un día marché
De un mundo de sensaciones que no encontré,
Y al descubrir que era todo una gran fantasía volví,
Porque entendí que quería las cosas que viven en ti...
Adiós...
Ayúdame...
No hay nada más que hablar...
Piensa en mí...
Adiós...
¿Por qué?
Porque ahora soy yo la que quiere estar sin ti...
Por eso vete, olvida mi nombre, mi cara, mi casa,
Y pega la vuelta
Jamás te pude comprender...
Vete, olvida mis ojos, mis manos, mis labios,
Que no te desean
Estás mintiendo ya lo sé...
Vete, olvida que existo, que me conociste,
Y no te sorprendas, olvida de todo que tú para eso
Tienes experiencia...

No Brasil a canção ganhou uma versão, entre outras, da dupla Jane e Herondy, que também se notabilizou por compor e cantar nesse estílo. Vale lembrar o clássico "Não se Vá", que possui, por sinal, um desfecho muito mais feliz que a canção anterior.
Lembro-me que encontrei certa manhã Jane passeando perto de seu apartamento no bairro dos Jardins em São Paulo.
Eu havia sido alertado pelo porteiro do hotel onde eu estava que isso poderia ocorrer, e me sugeriu que não falasse do Herondy pois eles haviam se separado.
Há menos tempo, a Banda Vexame liderada pela minha primeira playboy Marisa Orth (no auge de suas pernas) alcançou popularidade com uma versão da música portenha.

Pra quem não lembra, em cima do palco, Marisa Orth virava a apresentadora Maralu Menezes e seus convidados Carlos Pazzeto, Marcelo Papini e Fernando Salém viravam Malcon Ewerson, Cido Campos e João Alberto, respectivamente.
O repertório da banda era composto por resgates de clássicos da música nacional e internacional como: Uma vida só (pare de tomar a pílula), cantada nos anos 70 por Odair José ou Chuvas de verão, de José Augusto.
A Vexame criou um rótulo para o repertório que apresentava: MBPBB (Música Bem Popular Bem Brasileira), que incluia ainda canções de Lílian, Sharon, Fernando Mendes e Roberto Carlos.
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Na Sua Faringe

Infaustos Leitores,
O meu, o seu, o nosso aro irá dedicar este post ao grupo "Faringes do Amor" a nova fina flor da MPB que só poderia vir de Recife-PE.
Pra quem não conhece, Faringes da Paixão é uma banda nascida em 2004 com o objetivo de reviver a música romântica nacional, conhecida como Brega, homenageando os grandes nomes como o rei Reginaldo Rossi e Odair José.
A banda ainda faz sua homenagem aos artistas conterrâneos e contemporâneos como o Conde e Kelvis Duran, além disso interpreta versões de músicas internacionais de sucesso.
Vejam a magnânima letra do já clássico "Fofolete do Cão" - "Banana é 1 Real", hino que narra desventuras pelas quais todo homem já passou:
"Conhecer mulher feia é o destino de todo homem
Um dia vai te acontecer, pode crer, campeão!
Vai ser um ninja, um dragão
um double ou um canhão
Uma trepeça, derrota, um samurai
Ou uma fofolete do cão...
Fofolete do cão...
Tomar cuidado não vai ser suficiente
Ela vai te pegar ela conhece muita gente
Os seus amigos não vão poder te ajudar
E certamente você não vai escapar
Da fofolete do cão...
Fofolete do cão...
Pra quem foi pego só resta uma solução
Beber até morrer ou então
Viver eternamente sofrendo retaliação
Vestindo a camisa do bloco
Da fofolete do cão...
Fofolete do cão...
É meu conselho, eu também já fui pego
Venha comigo e exorcize o seu ego
Pra nunca mais ter que se ver atormentado
Fuja meu amigo! Ou vai ser encurralado
Pelo monstro mais horrendo que é
A fofolete do cão...
Fofolete do cão"...
Como meu pai já dizia, quem não come mulher feia não entra no céu.
A Banda disponibiliza o cd on line através do link abaixo:
http://www.faringesdapaixao.com.br/cd/
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Pergunte ao jogador

Colendos Leitores,
Já de há muito fico indignado com a desconfiança que certas pessoas possuem sobre a capacidade cognitiva de nossos jogadores de futebol.
Lógico que isso não passa de ressentimento em razão de você se matar de estudar e trabalhar e não ganhar nem um milésimo dos caras que, chutando uma bola, ganham pra si o melhor que o mundo pode dar.
Woody Allen já dizia que quando viramos adultos descobrimos que aquilo que nossos pais diziam que era bom não tem o menor futuro, e aquilo que eles diziam que era ruim, na verdade, era ótimo.
Até hoje guardo rancor por lembrar de todos os momentos em que deixei de jogar bola pra ficar com a cara enfiada nos livros.
E daí se você sabe o hino nacional? Vai dizer isso pra loira colada no craque pagodeiro.
Se você tiver um filho dê para ele uma bola e um cavaquinho. E pra filha um fio dental e uma garrafa pra ela ralar.
Se não levarem jeito, matricule no inglês, no reforço e torça pra ele (a) ir pra faculdade.
De toda sorte, muitos criticam o fato dos jogadores responderem sempre a mesma coisa nas entrevistas. O que ninguém parece notar é que toda resposta decorre de uma pergunta, e porra, os jornalistas sempre perguntam a mesma merda. Exemplos:
Situação: Jogador faz três gols na partida;
Pergunta: E ae Juninho Goiano , feliz com a atuação?
Resposta: "É, na verdade o grupo todo está de parabéns, o grupo tá unido, tá coeso, e só tenho a agradecer a Jesus em primeiro lugar(se for evangélico) e aos meus companheiros que fizeram uma ótima partida".
Comentário: O que vocês queriam? “Eu estou de parabéns, sou foda, se não fosse eu esse time tava fodido”. Ou, “na verdade não, o que é fazer três gols enquanto milhões morrem na África?”
Futebol é um esporte coletivo, se o cara se enaltece pega mal no grupo. Mais um caso:
Situação: Jogador chega ao final do campeonato brigando pela artilharia;
Pergunta: E ae Juninho Goiano , sonhando em ser artilheiro?
Resposta: É, na verdade o grupo todo está de parabéns, o grupo tá unido, tá coeso, e só tenho a agradecer a Jesus em primeiro lugar(se for evangélico) e aos meus companheiros que fizeram uma ótima partida, e mais do que ser artilheiro o importante é o resultado.
Comentário: O que vocês queriam? “Eu estou de parabéns, sou foda, se não fosse eu esse time tava fodido, na verdade ser artilheiro é meu único objetivo não importa se esse time cair ou perder, o importante é que eu faça gols”.
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Situação: Time perde final ou clássico.
Pergunta: E ae Juninho Goiano, triste com a derrota?
Resposta: “É, na verdade o time adversário está de parabéns, o time tentou lutou, infelizmente não conseguimos e o que nos resta agora é levantar a cabeça e pensar na quarta-feira (se o jogo for no domingo) / no domingo (se o jogo for na quarta) que vem”.
Comentário: O que vocês queriam? “É na verdade estou feliz pois torço pro time adversário, e sabe como é, jogo a gente ganha, a gente perde, no fundo sob a perspectiva dialética dá no mesmo”.
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Situação: Time ameaçado de rebaixamento.
Pergunta: E ae Juninho Goiano, como sair dessa situação?
Resposta: “É, na verdade o grupo está tentando, o time tentou, lutou, infelizmente não conseguimos e o que nos resta agora é levantar a cabeça, trabalhar durante a semana pra conseguir sair dessa situação”.
Comentário: O que vocês queriam? “Na verdade eu não sei como sair da situação, até mesmo se eu soubesse já teríamos saído. Não adianta dizer que trabalhar durante a semana vai resolver, o time é ruim mesmo e pelo visto vai cair”.
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Situação: Jogador titular amarga o banco.
Pergunta: E ae Juninho Goiano, como voltar a ser titular?
Resposta: “Eu estou trabalhando, meus colegas de posição também e temos que deixar na mão do professor que entende o que é melhor pro grupo”.
Comentário: O que vocês queriam? “ Bom, eu já parei de fumar, beber, cheirar e ir pra balada durante a semana. O problema é que esse viado desse técnico tá dando o rabo pro atual titular e comer cu eu não faço”.
.....................................................................................
Por isso, desafio a todos a responder da maneira mais original as seguintes questões:
Feliz com a vitória?
Triste com a derrota?
Como sair dessa situação? (ameaça de rebaixamento)
Filósofo, advogado, professor, escritor, apedeuta,astrólogo, canastrão esquerdomacho, o filho bastardo da nata da aristocracia afogadense, autoproclamado Barão de Afogados, Visconde do Crato e Marquês de Dom Quintino.
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